sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Por uma Escola diferente, por um Mundo melhor (Sara Rodi)


Quando, há três anos, sugeri ao meu filho mais velho que parasse de se queixar da escola e tomasse nota do que gostava de mudar nela, recebi um role de sugestões que, desde então, têm norteado a minha “luta” por uma mudança necessária:
* O excesso de avaliações e exames coloca uma pressão enorme nos alunos. Não se trabalha para saber, mas para ter boas notas. Sendo que esta pressão recai também sobre os professores e sobre as escolas (ai os rankings!). Hoje sabe-se que, sob um stress excessivo, a energia mental é reduzida. O cérebro aciona todos os seus mecanismos primários de alerta, prejudicando a apreensão cognitiva. Se pomos uma criança a andar sobre o arame, como queremos que ela aprenda a tabuada?
* A aprendizagem devia ser mais divertida, com mais jogos, mais experiências. Os alunos deviam sair mais das escolas e conhecer o mundo para o qual se estão a preparar. Claro que tudo isto tem custos. Mas grande parte do problema prende-se ao excesso de matéria que se dá em cada ano. Muitos professores revelam dificuldade em cumprir o conteúdo programático, e nada é devidamente aprofundado, experienciado, questionado. Para os testes, é mais avaliada a capacidade de “decorar” dos alunos do que a sua compreensão aprofundada e o seu sentido crítico. Como diz o meu filho, “para quê decorar tanta coisa que não nos interessa nem vai interessar para o nosso dia-a-dia, se hoje temos o Google?”.
* Passar um dia inteiro sentado a uma secretária a ouvir alguém a falar (por mais estimulante que seja) é duro. Especialmente duro para uma criança ou jovem que está numa idade em que precisa de brincar, correr e saltar. Deixar a escola ao final de um dia inteiro e ainda ter de ir fazer trabalhos de casa e estudar para os testes, é uma violência. Se até os adultos ao final do dia sentem necessidade de descansar, porque é que as crianças têm de continuar a trabalhar? Se é necessário ter as crianças nas escolas, ocupadas, porque não dar-lhes outras ferramentas que são também fundamentais para o seu desenvolvimento (e às vezes muito mais do que certas matérias): artes plásticas, teatro, música, dança, desporto, trabalho sobre as emoções, filosofia, culinária, cidadania, escrita criativa, línguas, etc, etc, etc? Porque terão estas atividades de ser remetidas para o final da tarde, quando as crianças já estão cansadas?
* Todas as crianças são diferentes. Têm talentos e qualidades. Num sistema de ensino igual para todos até uma idade avançada, há muito pouco espaço para o desenvolvimento individual dos talentos de cada um. A aposta (em aulas de apoio e explicações) é sempre naquilo em que os alunos são mais fracos. Não se aposta naquilo em que o aluno poderia fazer a diferença, agora e no futuro.
* As turmas são muito grandes, há muito barulho e dispersão, os professores passam uma boa parte do tempo a ralhar e a aplicar castigos. Se a maior parte das matérias está na internet, em vídeos e conteúdos bem explicados, não seria mais produtivo o aluno aprender autonomamente? E depois aproveitar o tempo com o professor para discutir e aprofundar as matérias, fazer experiências e trabalhos enriquecedores, beneficiando aí da existência de vários alunos?
* Se as tecnologias fazem parte do dia-a-dia dos alunos, e farão parte do seu futuro profissional, porque é que estão tão ausentes na escola?

Ao conversar abertamente com as crianças e os jovens, percebemos facilmente que eles não querem "matar" a escola. Eles entendem a importância da escola. Mas querem uma escola diferente, que não os deixe entediados, desmotivados e/ou frustrados dia após dia, durante anos a fio. Querem uma escola que os forme, mas também que os ajude a serem felizes, livres, curiosos, que os ensine a conhecerem-se, a conhecerem os outros e a saberem lidar com o mundo à sua volta. Parte deste trabalho deveria ser feito pelas famílias, é certo. Mas como exigir tanto às famílias se as crianças passam o dia todo na escola e a escola ainda invade o espaço com a família, com trabalhos de casa e estudo. Como exigir tanto às famílias, se os pais trabalham tanto e até tão tarde e não há políticas sociais e económicas que os apoiem? (e isso daria outro manifesto).
É hora de nós, pais e professores, nos perguntarmos seriamente para que serve a escola e que tipo de seres humanos estamos a criar nelas. Este modelo de ensino é uma herança do século XIX, em que era necessário capacitar futuros trabalhadores para as fábricas, essencialmente. Se o país e o mundo, neste momento, precisam de trabalhadores competentes, mas também empreendedores, autónomos, criativos, curiosos, com sentido crítico, capacidade de entreajuda e preocupados com o mundo que estão a construir... estará a escola a contribuir para a formação desse tipo de cidadãos? Se não, o que precisamos de mudar?
Em muitos países o sistema de ensino já está em mudança. Em várias escolas já não existem aulas, nem currículos estanques, nem avaliações como a nossas. A autonomia e o respeito pelas capacidades e interesses individuais da criança e jovem são trabalhados através de projetos interdisciplinares, com professores que são sobretudo tutores, mestres para a vida. Em Portugal, há também escolas que alimentam esse sonho e criam medidas inovadores que fazem toda a diferença na vida dos alunos. Esta mudança é possível. É necessária. E é urgente. Dela depende a felicidade das novas gerações. E uma geração feliz, constrói um mundo melhor.
Em “Massa Fresca” tentámos semear a esperança. Queremos ouvir as vossas queixas, mas também as soluções que têm vindo a encontrar. Queremos fazer deste Movimento Mocho uma partilha de experiências e boas práticas, entre professores, pais e alunos. Acreditamos que é possível e que, em conjunto, vamos consegui-lo. Vamos a isto?

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